sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bicho não é presente, Gato persa não é troféu.

Artigo postado no blog da Confraria dos miados e latidos, escrito por Tatis Sales Rodrigues da Cunha.
Boa leitura!

A saga da doação do Gary: bicho não é presente e gato persa não é troféu.

Boa noite, pessoal.
Gostaria hoje de publicar um artigo que há muito tenho vontade de escrever, mas ele acabou por abranger dois assuntos dada a situação que me motivou a escrevê-lo.
O primeiro assunto é a dificuldade em doar um animal de raça. O segundo é a mentalidade que as pessoas têm ao acharem que um animal pode ser um presente.
Quando tenho um animal que seja de alguma raça ou que tenha alguma necessidade especial (albinos, surdos, etc), a doação dele é absurdamente difícil. Por diversas vezes estive encarregada de doar persas, maine coons e até mesmo um british shorthair, e foram as doações que mais me demandaram tempo, trabalho e sossego.
Todo mundo se anima a ter um persa. "De graça" ainda por cima, que maravilha! Porém são poucas as pessoas que enxergam um animal como um ser vivo que merece respeito, cuidado e amor como qualquer outro; poucos enxergam um gato desses como um gato e não como um troféu.
Nunca fui contra uma pessoa optar por ter um animal de determinada raça ou aquele sem raça definida. Acho que cada adotante deve ter ciência de suas condições de espaço e tempo. Tratando-se principalmente de cães, muitas vezes a noção do tamanho que o animal terá ao tornar-se adulto é fundamental na adoção. Também nunca critiquei quem opte por comprar um animal, desde que o faça de maneira consciente e de criadores decentes, não cachorreiros ou petshops irresponsáveis.
O que sou contra é uma pessoa querer um animal só porque ele tem uma raça sem preocupar-se se é capaz de oferecer o que ele precisa com relação a cuidados específicos. É querer um troféu, e não um gato.
Apesar da quantidade de pessoas que se candidataram para adotar o último persa que doei (53 pretendentes), levei um mês para conversar com essas pessoas, entrevistá-las e na maioria das vezes, recusar a doação. Ouvi desaforos dos tipos que vou citar abaixo - exatamente da maneira (escrita, inclusive) que recebi:
"Gostaria muito de adota-lo mais com essa frescurada toda, vendo se eu quiser adota-lo de verdade, percebi que nao terei sussego com os antigos donos"
e também:
"ah e como pode saber quanto temos em conta corrente '' a ração é cara'' enfim tente cometer menos gaffi em outros contatos.e até nunca mais."
Isso tudo porque no primeiro caso eu sequer fiz algum contato: a pessoa olhou o anúncio e deu-se ao trabalho de me escrever isso. No segundo caso, a pessoa dizia que tinha quatro cães e que o gato era presente para a sobrinha, e eu então expliquei com a maior educação do mundo que não podemos dar animais de presente, que eu precisaria conversar com os pais da menina para saber se eles estavam de acordo e se eles tinham consciência dos custos para manter um persa e, estando eles dentro dos nossos critérios, eu doaria o gato com todo o prazer.
É aí que entro no segundo assunto: a mania que as pessoas tem de achar que bicho é presente.
Vida não é presente. Não se dá um animal de presente sem que o presenteado saiba, não se faz surpresa com uma vida. Serão quinze anos de cuidados constantes, e não é possível 'presentear' alguém com algo que lhe dará 'trabalho' por quinze anos. O compromisso é enorme!
Também sobre isso, recebi a seguinte resposta (igualmente reproduzo da maneira exata como recebi):
"pode ser presente sim porque quando vamos ter filhos dizemos ter recebido um presente de deus,e o animal tembem só não disse a ela para não causa-le ansiedade.mas tudo bem doe a quem pensar como vc porque assim se sentirá melhor, para nossa família a vida é um presente de deus!!!!!!!!!"
Um enorme problema em lidar com as pessoas nessa escala é que elas sempre pensam que nossos critérios são pessoais. Que quando informo o preço da ração, vacinas, banhos e tudo o mais, na verdade estou insinuando que elas não tem dinheiro para manter o gato e não é nada disso.
Outro problema é que muitas vezes as pessoas não entendem que bicho não é brinquedo. Bicho não pode ser trocado quando quebra. Bicho não tem certificado de garantia e não dá pra repor peça. E mais ainda, animal não é presente surpresa para criança alguma sem que os pais saibam disso.
Por incrível que pareça, é bem mais fácil doar um vira-latinha (SRD) do que um gato "de raça".
Acabo doando o gato geralmente para pessoas que tem condições e conhecimento para comprar um, mas optam por adotar ou ainda para adotantes que já têm gatos nossos. Muitas são as pessoas que nos procuram e que não tem a menor condição de ter animal algum, mas não posso dizer isso com todas as letras, e nem é necessário.
O que lamento é saber que em outras situações e com 'protetores' menos criteriosos, animais são doados somente para ter uma chance de sair do ruim pro menos pior. Quantos abandonos não vemos por aí porque proprietários não se encaixam no que o animal precisa, ou quando o animal não tem o perfil que o adotante busca?
Temos exigências básicas para doar um gatinho (apartamento telado ou casa igualmente segura, ração de qualidade, veterinário quando necessário), mas quando exigimos algo a mais para algum gato em específico, não é à toa: sabemos do que falamos. Quando exigimos, além de respeitar os limites e necessidades do animal, também baixamos a quase zero as chances de a adoção dar errado.
O Gary mesmo (o ultimo persa) exigia uma casa sem outros animais, quaisquer que fossem eles. Ainda assim a quantidade de pessoas que tentaram adotá-lo tendo outros gatos/cães - mesmo tendo deixado isso muito claro no anúncio - foi enorme. Os argumentos iam de
"eu darei a ele muito carinho e ele não terá ciúmes, vou mostrar a vocês como é que se cuida de um gato"
até o
"tenho outros seis 'perças' mas eles não vivem dentro de casa, só este viverá".
Ou seja, perdem o tempo delas e o nosso também, pois mesmo aos contatos mais absurdos eu respondo.
Enfim, doar um animal demanda tempo, paciência, experiência e principalmente discernimento (e também algum conhecimento) para não preocupar-se em doar o bicho somente para que a pessoa não se magoe. Tenho ótimos amigos que são péssimos adotantes, e por duas vezes recusei-me a doar gatos a eles. Não tenho qualquer problema em dizer isso. Muitas foram as vezes que um candidato não atendia às nossas exigências mas quis adaptar-se colocando telas nas janelas, adquirindo ração adequada ou castrando os animais que já tinham em casa. Felizmente esse número de pessoas cresce constantemente, para nossa alegria =o)
Para finalizar a história, o Gary hoje vive num lar em que reina sozinho e tem a companhia de duas crianças (ele adora crianças), e sua proprietária atendeu a todas as nossas exigências. Em quatro dias de casa nova ele já está bem adaptado, come bem e leva a vida que precisava. E, mais uma vez, é reflexo da máxima que tenho comigo de jamais arriscar a vida de um animal para agradar uma pessoa, seja ela adulta ou criança. Aquela vida, para mim, está em primeiro lugar.
Grande abraço a todos e obrigada pela visita!
Tatis.
 

2 comentários:

Adriana disse...

concordo em tudo que vc falou um bichinho seja la qual for não é um presente e sim um ser vivo, mas muitas pessoas nao pensan assim ,acham que é so colocar comida e pronto.Eu perdi duas gatinhas uma com 22 anos morreu pois estava com cancer no nariz e não teve jeito tive que mandar sacrifica, case morri junto com ela e a ourta foi no mes passado o cachrro do vizinho pegou ela e quebrou ela toda por dentro, mas consegui pegar ela ainda com vida no colo parecia que ela estava me pedindo ajuda ,foi uma dor muito grande que as pessoas falavam é so um gato para eles ,mas para mim é como se fosse filho

Helena disse...

realmente , presente á algo que não tem sentimentos , não sente fome ,sede , dor , solidão , enfiom e´algo que não se pode comprar com valores materiais e sim com valores sentimentais , parabens a vc pela exata colocação !